Entre portos, carvão e gás: comunidades tradicionais denunciam impactos da expansão industrial em São Luís

Visita aos territórios de Taim e Camboa dos Frades revela os impactos da mineração, da logística portuária e da geração de energia sobre comunidades pesqueiras e tradicionais da zona rural de São Luís (MA).

A campanha “Chega de Furar. É Hora de Cuidar.” esteve, no dia 10 de junho, nos territórios de Taim e Camboa dos Frades, na zona rural de São Luís (MA), para ouvir lideranças comunitárias e conhecer de perto os impactos provocados pela expansão do complexo industrial e energético que avança sobre áreas tradicionalmente ocupadas por pescadores, marisqueiras e agricultores.

A atividade foi realizada pela equipe da campanha, vinculada ao GTA Fórum Carajás, e revelou um cenário marcado pela concentração de grandes empreendimentos e pela ausência de direitos básicos para as populações locais. Enquanto grandes corporações ampliam suas operações na região, comunidades tradicionais seguem enfrentando dificuldades de acesso à água potável, saneamento, infraestrutura e políticas públicas essenciais.

O território é cercado por empreendimentos ligados à mineração, logística portuária e geração de energia. Entre eles estão estruturas da Vale e da ENEVA, empresa que opera usinas termelétricas abastecidas por carvão mineral importado da Colômbia. A contradição é evidente: enquanto famílias convivem com o desabastecimento de água, a empresa perfurou dezenas de poços profundos para garantir o funcionamento de suas operações industriais.

No Taim, comunidade formada por pescadores e extrativistas, a equipe foi recebida por Beto Cantanhede, presidente da associação de moradores. Durante a visita, ele apresentou os impactos provocados pelo crescimento da atividade portuária na região. Segundo a liderança, estruturas ligadas ao Porto do Itaqui, Alumar, EMAP e Suzano vêm restringindo cada vez mais os espaços utilizados tradicionalmente para a pesca, comprometendo a principal fonte de renda das famílias.

Diante do avanço da pressão territorial e da especulação imobiliária, a comunidade tem se mobilizado pela criação da Reserva Extrativista (RESEX) do Taim, proposta construída em parceria com organizações da sociedade civil maranhense para garantir a proteção dos manguezais e a permanência das famílias em seu território.

Na comunidade de Camboa dos Frades, a equipe ouviu o relato de Maria do Ramo, presidente da associação local. A liderança denunciou os impactos provocados pela queima de carvão mineral utilizada nas operações da ENEVA. Segundo ela, a fuligem lançada sobre o território afeta diretamente as plantações e as criações de subsistência das famílias, comprometendo a produção de alimentos e a qualidade de vida da população.

Além dos impactos sobre a agricultura, os moradores também enfrentam a redução progressiva das áreas de pesca. Com a expansão da infraestrutura portuária, comunidades que historicamente vivem da relação com o mar veem seu território cada vez mais limitado pelas estruturas industriais.

Os relatos das lideranças evidenciam uma realidade recorrente em diversos territórios amazônicos: enquanto grandes empreendimentos acumulam lucros a partir da exploração dos recursos naturais, comunidades tradicionais convivem com a perda de direitos, a degradação ambiental e a ameaça permanente aos seus modos de vida.

A visita reforça a importância de ampliar o debate sobre justiça climática e transição energética justa, colocando no centro das decisões aqueles que historicamente protegem os territórios e que hoje são os mais impactados pelos efeitos do modelo baseado na expansão dos combustíveis fósseis e de grandes projetos industriais.

Fotos: João Paulo Guimarães

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