Estudo internacional mostra que os impactos do petróleo, gás e carvão começam antes mesmo do nascimento e se estendem por toda a vida, afetando principalmente comunidades vulneráveis e territórios tradicionais

Quando se fala em combustíveis fósseis, a maioria das pessoas pensa apenas na fumaça que sai dos escapamentos, nas chaminés das usinas ou nos impactos das mudanças climáticas. Mas um novo relatório internacional mostra que os danos causados pelo petróleo, gás e carvão começam muito antes da combustão e continuam muito depois dela.
A segunda edição do relatório “Do Berço ao Túmulo: O impacto dos combustíveis fósseis na saúde e a urgência de uma transição justa”, publicada pela Aliança Global para o Clima e a Saúde (GCHA), apresenta um amplo levantamento científico sobre os efeitos da cadeia dos combustíveis fósseis na saúde humana, desde a exploração até o descarte dos resíduos industriais.
A publicação reúne pesquisas, estudos de caso e relatos de comunidades de diferentes partes do mundo para demonstrar que os combustíveis fósseis não são apenas uma questão energética ou climática, mas também uma das maiores ameaças globais à saúde pública.
Um impacto que começa antes do nascimento
O relatório mostra que os danos provocados pelos combustíveis fósseis acompanham as pessoas ao longo de toda a vida.
A exposição à poluição gerada pela exploração, transporte, refino e queima de petróleo, gás e carvão está associada ao aumento de doenças respiratórias, cardiovasculares, neurológicas e diversos tipos de câncer. Os impactos atingem inclusive gestantes e crianças ainda no período de desenvolvimento fetal.
Segundo os pesquisadores, os efeitos não se limitam às doenças. A contaminação da água, do solo e do ar compromete a segurança alimentar, afeta a saúde mental, destrói modos de vida tradicionais e amplia desigualdades sociais já existentes.
“Desde a primeira extração até a emissão final, os combustíveis fósseis são arquitetos silenciosos do sofrimento”, destaca o relatório ao abordar a relação entre poluição, mudanças climáticas e saúde pública.
Comunidades na linha de frente dos impactos
Um dos diferenciais da publicação é dar voz às populações que convivem diariamente com a poluição e os riscos da indústria fóssil.
Entre os relatos apresentados está o de Musawenkosi Dhlamini, jovem sul-africana diagnosticada com asma após crescer cercada por minas de carvão. Ela relata anos de internações hospitalares e dificuldades respiratórias associadas à poluição da região onde vive.
Outro testemunho vem da Índia, onde comunidades pesqueiras denunciam a contaminação das águas por refinarias e derramamentos de petróleo. Para os moradores, os danos vão além da economia local: representam uma ameaça à identidade cultural, às tradições e à própria existência dos povos que dependem dos rios e mares para sobreviver.
As histórias reforçam um padrão identificado ao longo do relatório: os impactos recaem de forma desproporcional sobre comunidades indígenas, povos tradicionais, trabalhadores, populações periféricas e grupos historicamente marginalizados.
Da extração à crise climática
O documento analisa todas as etapas da cadeia fóssil.
Os danos começam na abertura de áreas para exploração, passam pela perfuração de poços, mineração, transporte por dutos, navios e caminhões, seguem pelo refino e culminam na queima dos combustíveis para geração de energia, transporte e produção industrial.
Além da poluição direta, os combustíveis fósseis são apontados como os principais responsáveis pela crise climática global. O aumento das temperaturas, secas, enchentes, incêndios florestais e eventos extremos amplia os riscos à saúde e aprofunda vulnerabilidades sociais.
Para os autores, não é possível discutir saúde pública sem enfrentar a dependência mundial dos combustíveis fósseis.
O alerta para a Amazônia
Embora o relatório apresente exemplos de diferentes países, suas conclusões dialogam diretamente com a realidade amazônica.
Na região, comunidades indígenas, ribeirinhas e extrativistas convivem com ameaças relacionadas à exploração de petróleo e gás, grandes projetos de infraestrutura e sistemas energéticos altamente dependentes do diesel.
A poluição do ar, os riscos de derramamentos, a contaminação da água e os impactos sobre a pesca e a segurança alimentar são alguns dos problemas já enfrentados por populações amazônicas.
Para organizações da sociedade civil, os dados reforçam a necessidade de interromper a expansão da fronteira fóssil na Amazônia e acelerar uma transição energética que coloque a saúde, os direitos humanos e a proteção dos territórios no centro das decisões.
Uma transição justa é possível
O relatório não se limita a denunciar os impactos. A publicação também apresenta caminhos para uma transição energética justa e saudável.
Entre as recomendações estão a suspensão de novas explorações de combustíveis fósseis, a eliminação de subsídios públicos ao setor, o fortalecimento das energias renováveis, a responsabilização das empresas pelos danos causados e o combate à desinformação promovida pela indústria.
Os autores defendem que a transição energética deve ser construída com participação social, respeito aos direitos humanos e atenção especial às populações mais afetadas pelos impactos ambientais.
Mais do que uma questão tecnológica, a mudança proposta é uma escolha sobre qual futuro se deseja construir.
Ao reunir evidências científicas e histórias humanas de diferentes continentes, o relatório deixa uma mensagem clara: os combustíveis fósseis afetam a saúde desde o berço até o túmulo. E quanto mais tempo o mundo adiar a transição, maior será o custo pago pelas pessoas, pelos territórios e pelas futuras gerações.