Em ação internacional durante a Assembleia Geral da Volvo, lideranças indígenas da Amazônia e defensores do ar limpo denunciam a permanência do diesel nos territórios e cobram metas concretas para acelerar a eletrificação do transporte de cargas e a justiça climática global.

Lideranças indígenas da Amazônia brasileira e defensores do ar limpo dos Estados Unidos protagonizaram, nesta terça-feira, uma ação internacional coordenada em frente à Assembleia Geral Anual da Volvo Group, exigindo que a empresa abandone sua dependência do diesel e acelere uma transição global efetiva para caminhões elétricos.
A mobilização integra a campanha #VolvoSplitFromDiesel, articulada pela rede Idle Giants, que reúne comunidades diretamente impactadas pela poluição do transporte de cargas, dos portos norte-americanos aos territórios da Amazônia.
Contradições entre discurso e prática
Apesar de promover a meta de neutralidade climática até 2040, a Volvo deixou de mencionar seu compromisso anterior de atingir 50% de vendas de caminhões elétricos até 2030. Na prática, menos de 2% de suas vendas atuais são de veículos elétricos, enquanto a empresa segue fortemente dependente de caminhões a diesel, associados a impactos significativos na saúde pública e no meio ambiente.
Além disso, organizações denunciam que a montadora tem atuado para enfraquecer regulações climáticas tanto nos Estados Unidos quanto na Europa, o que contrasta com sua imagem de liderança ambiental.
Com forte presença global, a Volvo detém cerca de 18% do mercado de caminhões na Europa e 15,8% na América do Norte.
Impacto direto nas comunidades
“Isso não é liderança. É uma contradição”, afirmou Mary Peveto, diretora executiva da organização Neighbors for Clean Air. “Na minha comunidade, no Oregon, quase 20 mil caminhões passam diariamente em frente à escola das minhas filhas. Isso não é abstrato, está acontecendo agora, nas portas das nossas casas.”
Segundo ela, fabricantes de caminhões pesados são responsáveis por cerca de 80% da poluição do transporte de cargas, apesar de já existir tecnologia disponível para reverter esse cenário.
Amazônia denuncia desigualdade na transição energética
Diretamente da Amazônia brasileira, lideranças indígenas denunciaram que a transição para veículos de emissão zero ainda não chegou à região.
“As empresas falam de emissões zero globalmente, mas aqui na Amazônia ainda vemos apenas diesel”, afirmou Sila Mesquita Apurinã, coordenadora da Rede GTA. “Cresci na Zona Franca de Manaus e nas rodovias da região. Caminhões a diesel cruzam nossos territórios todos os dias, trazendo poluição, ruído e doenças.”
O cacique Jonas Mura reforçou o impacto social da situação:
“Essa é uma questão de saúde e de direitos humanos. As doenças respiratórias estão aumentando enquanto empresas falam em liderança climática. Se as metas são reais, precisam chegar aos nossos territórios. Até hoje, não existe um único caminhão elétrico na Amazônia.”
Soluções viáveis e imediatas
As lideranças destacam que a eletrificação do transporte de cargas na região é viável e traria benefícios concretos. Segundo estudo da Rede GTA, apenas 12 estações de carregamento rápido seriam suficientes para operar cerca de 300 caminhões elétricos na região da Zona Franca de Manaus, reduzindo o tempo de viagem em 15% e economizando aproximadamente 5,4 milhões de litros de diesel por ano.
Além da redução de emissões, os benefícios incluem menor poluição sonora e menor risco de contaminação de rios e florestas por combustíveis fósseis.
Pressão global por mudança
A mobilização ocorre em meio a uma crescente pressão internacional sobre a Volvo. Dezenas de milhares de pessoas já assinaram petições exigindo que a empresa garanta 100% de vendas de caminhões com emissão zero até 2040.
Os ativistas defendem que a influência política da empresa esteja alinhada com seus compromissos públicos, especialmente diante de retrocessos recentes em políticas climáticas, como mudanças nas regras da Environmental Protection Agency, que impactam diretamente a regulação de emissões de veículos pesados.
Demandas ao Volvo Group
A rede Idle Giants defende que a empresa atue de forma consistente com seus compromissos climáticos, passando a apoiar políticas públicas que impulsionem a transformação de todo o setor e garantam previsibilidade ao mercado. Também cobra que a companhia se comprometa a não apoiar e a rejeitar publicamente quaisquer iniciativas que enfraqueçam regulamentações ambientais e de qualidade do ar. Além disso, solicita que a Volvo priorize investimentos em caminhões elétricos e infraestrutura de recarga em regiões com alta concentração de poluição e potencial de benefícios imediatos à saúde, incluindo territórios vulneráveis como a Amazônia.
Chamado por coerência climática
“Liderança real significa acelerar a transição, não atrasá-la”, afirmou Mary Peveto.
“Se a Volvo leva a sério a eletrificação, precisa priorizar a Amazônia, e não deixá-la presa ao diesel”, acrescentou Sila Mesquita.
Para os organizadores, o recado é claro: não há espaço para discursos climáticos sem ação concreta, especialmente quando comunidades inteiras seguem pagando o preço da poluição.