Em meio à crise climática global, vozes da Amazônia alertam para os riscos da exploração petrolífera e cobram justiça territorial na transição energética.

O segundo dia da Conferência por Territórios Livres de Combustíveis Fósseis, realizada em Santa Marta, foi marcado por denúncias contundentes e debates aprofundados sobre os impactos da exploração de petróleo e gás em territórios tradicionais da Amazônia e de outras regiões da América Latina.
As discussões ocorreram durante o painel “Os dilemas da transição energética e o recrudescimento do extrativismo mineral em tempos de guerra e de repartição geopolítica do mundo”, que abordou como a crescente demanda por energia e minerais estratégicos tem ampliado a pressão sobre territórios ambientalmente sensíveis e comunidades tradicionais.
Denúncias de violações e impactos nos territórios
Entre as falas mais impactantes esteve a do cacique Jonas Mura, coordenador da Rede GTA de Povos e Comunidades de Silves (AM), que denunciou a atuação da empresa Eneva dentro do território do povo Mura durante a pandemia.
“Os impactos já são visíveis, com prejuízos ao meio ambiente e ao nosso modo de vida. A caça diminuiu e a qualidade do ar piorou”, relatou.
O debate também contou com a participação de especialistas e lideranças internacionais, reforçando o caráter global da discussão sobre justiça climática e energética.

Transição energética e disputa global
As discussões evidenciaram que a transição energética, embora necessária, ocorre em meio a disputas econômicas e geopolíticas que podem aprofundar desigualdades e conflitos.
Os participantes alertaram que, sem justiça social e respeito aos territórios, o processo pode reproduzir violências históricas, transformando regiões como a Amazônia em novas fronteiras de exploração.
Rede GTA reforça posicionamento político
Representantes da Rede GTA também participaram ativamente do debate, reforçando a necessidade de colocar os povos e territórios no centro das decisões.
A coordenadora geral da Rede GTA, Sila Mesquita, destacou que não há transição energética possível sem justiça territorial.
“Não aceitaremos que a transição energética seja construída às custas dos nossos territórios. A Amazônia não pode continuar sendo tratada como zona de sacrifício para sustentar um modelo que historicamente exclui os povos que aqui vivem”, afirmou.
“Ou colocamos a vida, os territórios e os direitos dos povos no centro desse debate, ou estaremos apenas mudando a forma de exploração, sem enfrentar suas causas.”

Articulação, comunicação e formação
O coordenador de Articulação e Parcerias, Adilson Vieira, ressaltou a importância da união entre organizações.
“Existe uma articulação crescente na América Latina que denuncia e resiste ao avanço do extrativismo. Precisamos transformar essa força em incidência política concreta.”
Já o coordenador de Comunicação e Engajamento Comunitário, Mayron Borges, destacou o papel estratégico da informação.
“A crise climática tem rosto, tem território e tem consequência direta na vida das pessoas. Comunicar isso é fundamental para mobilizar a sociedade.”
Na mesma linha, o coordenador de Formação, Oberdan Mascarenhas, reforçou a necessidade de fortalecer as bases.
“Sem formação política e fortalecimento comunitário, os povos ficam ainda mais vulneráveis diante desses grandes projetos.”
Vozes dos territórios
Representando a região do Marajó, o coordenador da Rede GTA, Nelson Barros, trouxe para o debate a realidade das populações que vivem diretamente os impactos da exploração.
“Os territórios amazônicos não podem continuar sendo vistos como espaços disponíveis para exploração. No Marajó, como em toda a Amazônia, quem vive no território sente primeiro os impactos e, muitas vezes, é o último a ser ouvido. É preciso inverter essa lógica e garantir que os povos sejam protagonistas nas decisões sobre seu futuro.”

Caminhos e declaração final
No período da tarde, os grupos de trabalho apresentaram propostas para enfrentar os desafios discutidos ao longo da conferência. Os relatos evidenciaram que os impactos da exploração de combustíveis fósseis vão além do meio ambiente, envolvendo conflitos sociais, violência e ameaças diretas às comunidades.
A declaração final do encontro reforçou o tom político e urgente das discussões, ao afirmar que não há transição possível sem justiça.
“Não há transição possível sem justiça. Não há futuro negociável quando a vida está em jogo”, destaca o documento final da conferência.
O texto também denuncia que a atual corrida global por energia e minerais estratégicos continua pressionando territórios e povos, transformando florestas, rios e comunidades em zonas de sacrifício. Ao mesmo tempo, aponta caminhos baseados em alternativas construídas pelos próprios povos, como economias comunitárias, agroecologia e modelos energéticos sustentáveis.
Encerrando o encontro, a mensagem foi direta: a defesa da Amazônia não é apenas uma pauta ambiental, mas uma luta pela continuidade da vida e essa escolha precisa ser feita agora.